Quem vê orgulho, não vê o corre: a luta para fazer uma parada LGBT

Por trás de eventos organizados e drag queens brilhantes, há dificuldades financeiras, muita dedicação e, enfim, recompensa

Publicado em 21/01/2026
parada lgbt brasilia
Paradas, aos poucos, têm superado dificuldades para ir à rua. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Welton Trindade 

A comunidade LGBT pode querer - e tem o direito, claro - de chegar a uma parada do orgulho e ver uma bela decoração; ir ao seminário da semana de atividades anterior à marcha, obter conhecimento com convidados de qualidade e depois conhecer pessoas no coquetel; contar com grupo ativista cujas redes sociais são sempre atualizadas e cheias de incentivo ao engajamento social... 

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Entretanto, não pode soar absurdo afirmar que essa comunidade também precisa conjugar outro verbo: saber que disponibilizar tudo isso exige tempo, dedicação, dinheiro, e até saúde mental ou física, por exemplo, de lideranças que carregam a missão de construir as paradas. Antes, durante e depois do orgulho, tem muito, muito trabalho! 

O educador social potiguar Wilson Dantas, 51 anos, é ativista LGBT desde 1993 e fundou e sempre esteve à frente da parada de Natal. Sua determinação em fazer o evento desde 1999 mostra que há heróis de capas e cintos de utilidades e outros que batem leque arco-íris.

"É corriqueiro tirarmos dinheiro do bolso enquanto, podemos falar, toda comunidade LGBT acha que nós organizadores ou ganhamos muito dinheiro ou roubamos muito dinheiro! Ninguém vê a realidade nua e crua de que muitos, muitos de nós ativistas que fazemos as marchas gastamos até nossas economias para dar conta dos custos do evento. Isso é constante, constante. Não é uma vez de dez em dez anos, não! Em 2024, por exemplo, recebi meu salário e tive de gastá-lo todinho para pagar os custos da parada!"

Essa necessidade é fruto ruim de um contexto, ele explica. 

"Falta muito apoio. As empresas privadas não têm interesse em apoiar marchas fora dos grandes centros. Fica impossível uma companhia multinacional enxergar uma parada de uma capital do Nordeste. E ainda enfrentamos a burocracia e falta de estímulo local. A gente consegue apoio? Sim, mas com muita luta! De toda forma, nunca é suficiente para tudo o que gostaríamos."

O lamento inclui os seus iguais, admite o ativista, que começou a lutar há 33 anos impactado pelo quanto a epidemia de HIV dizimava gays, trans e homens bi. 

"O correto é que a comunidade LGBT e os empresários, donos de casas LGBT, se mobilizassem e contribuíssem com o evento. A parada tem de ser uma construção coletiva, uma soma em busca de nossos direitos. Isso também vale para o voluntariado. Recebemos muitos poucos interessados em nos ajudar."

Ok, a trajetória tem pontos baixos, mas também altos. "Para 2026, algo incrível: conseguimos apoio já comprometido pela prefeitura de Natal. Um grande alívio", comemora Wilson

Tantos empecilhos chegam a abalar pessoas que não precisariam chegar ao título de heroínas, apenas ao de ativistas - sonhadores e fazedores de um mundo melhor -, mas é o que ocorre. 

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Charlett (à dir.) chegou a pensar em parar de organizar paradas devido às dificuldades

A ativista trans Charlett, pedagoga e auxiliar administrativa de 34 anos, é líder da parada LGBT de Itapoã, uma das regiões administrativas mais pobres da capital federal e que já esteve nos primeiros postos de rankings de violência na região.

A baiana mostra-se guerreira no ativismo social desde 2009, quando lutava por saneamento básico e asfalto na vizinhança, e é outro exemplo do esforço pessoal que está por trás do glitter que reluz nas drag queens quando elas se apresentam nas marchas. 

"Sabe, é tanta dificuldade, tantos empecilhos... Eu confesso que no meio de 2025 pensei em desistir, parar mesmo. Mas fizemos a parada e é incrível: ela recuperou minha energia! E isso porque as pessoas da comunidade veem nosso esforço e dizem para a gente continuar, que é importante o que fazemos. Ano passado, caiu uma chuva grande na hora da parada, mas mesmo assim o pessoal estava lá dando apoio. E isso mostra que vale a pena lutar e fazer parada LGBT."

Enfim, o sonho vai continuar a se realizar a cada ano. Em 2012, ela tentou fazer a primeira edição do evento, porém faltaram mãos entendidas.

"Queria muito fazer parada onde moro, falar da nossa realidade para o povo daqui. Eu tentei em 2012, mas não consegui. Infelizmente, houve falta de apoio de outros ativistas... Parece que não querem que outros ativistas surjam. Triste isso, mas era real."

Dois anos depois, o sorriso! "Com apoio da secretaria de educação local e dinheiro meu mesmo colocamos a parada na rua. Foi um carrinho de som, mas aconteceu. E também tive de usar dinheiro meu para as edições dos anos posteriores. Apenas a partir da quinta edição tivemos apoio de emenda parlamentar."

Charlett começou 2026 com articulações para que o apoio se repita e ela, agora com energia renovada, continue a mostrar a realidade de ser LGBT na periferia. 

Essa reportagem foi idealizada desde o início com os quatro ativistas que aqui estão. Eles não foram selecionados porque vivenciam ou já passaram por dificuldades financeiras para realizar a parada do orgulho. O fato é que essa realidade simplesmente explodiu nos depoimentos. 

bruno mendonça parada mogi guacu lgbt
Bruno Mendonça, líder da parada de Mogi Guaçu (SP): início motivado pelo preconceito sofrido

O professor de biologia e matemática Bruno Mendonça, 37 anos, é presidente da Associação e Grupo Voo pela Liberdade, que organiza a marcha arco-íris de Mogi Guaçu, cidade paulista de 160 mil habitantes. 

Essa história começa com a exclusão, ele conta. 

"Em 2011, quando eu trabalhava em uma escola particular, a mãe de uma aluna foi à direção exigir a minha demissão por, ela argumentava, eu 'não ser boa influência para a criança'. Foi bem clara: 'Sou religiosa, minha família é religiosa, várias famílias da escola são e ele é gay!' E isso me fazia ser uma pessoa perniciosa para as crianças."

O preconceito fez um lado perder. "Ela chantageou a direção: ou eu era demitido ou ela iria falar com mais pais para que todos tirassem os filhos da escola. Resultado: fui desligado!"

"Aquilo me revoltou, mas só ficar nisso não adiantava. Eu precisava agir. E aí pedi apoio para um amigo meu de uma cidade próxima e que já organizava parada para ele me orientar sobre como fazer uma marcha. Eu não tinha a mínima noção, mas queria fazer para mostrar para as pessoas intolerantes iguais àquela mulher que existimos e merecemos respeito."

paradas lgbt no Brasil
Levantamento anual do Guia Gay mostra a quantidade de paradas do orgulho LGBT no Brasil desde 2019. Em 2020 e 2021, o estudo foi interrompido por conta da pandemia do coronavírus, época em que, praticamente, os eventos ou tornaram-se virtuais ou foram cancelados. Vê-se em 2022 o número mais baixo da série. A explicação é justamente a dificuldade que muitos coletivos LGBT tiveram em retomar a realização do ato. Muitos, nunca voltaram a ser feitos.
Tais números colocam o Brasil em contagem ainda informal como o primeiro ou segundo país que mais realiza paradas do orgulho no planeta. Números finais consolidados serão divulgados em 2027. 
De toda forma, dentro do Brasil, as paradas já possuem um título que parece que não será tomado delas tão cedo: os maiores atos de direitos humanos da história do País. Nunca houve tantos eventos anuais e realizados em quase todas unidades da Federação que reunissem milhões de pessoas em defesa de cidadadania e respeito. 

Então, Bruno conheceu o quanto o ativismo pode exigir de quem o tem como missão.

"A respeito de grana, nos primeiros nove, dez anos, eu tive de tirar dinheiro da minha conta e pagar custos da parada. Ou era isso ou ela não saía, não existiria. Nessa caminhada ao longos dos anos, vários coisas aconteceram. Já tivemos de cancelar por falta de dinheiro, por exemplo. E tudo é muito suado. A gente luta para ter algum apoio e vem algo pequeno... E temos de lidar até com situação em que a pessoa ou empresa até ajuda, mas não quer que a gente nem faça agradecimento em público, tem de manter segredo, não quer aparecer! Cidade conservadora mesmo!"

Mas assim como Wilson, Bruno tem colhido frutos de tantos anos de luta. 

"Nos últimos cinco anos, passou a haver editais do governo do Estado, leis de incentivo à cultura, mas, mesmo assim, tenho de colocar dinheiro meu porque nem todos os itens que precisamos são contemplados nesses apoios."

O sentimento de recompensa, ainda que meio zonzo de tanta pancada, também é vivido na cidade do Rio de Janeiro. 

É o que transborda a produtora de eventos Priscila Rodrigues, organizadora da parada LGBT da Rocinha juntamente sua esposa, Mônica Medina. "E nunca deixando de falar da colaboração da UPMMR, associação dos moradores locais", grifa ela. 

Detentora do título de maior favela do Brasil, a localidade, atualmente com 72 mil habitantes, celebra o orgulho arco-íris desde 2012. Tudo começou com flores e portas abertas? De novo, não! 

"Foi um início pequeno. Na época, o movimento LGBT não era tão unido como é hoje, por isso tivemos pouco apoio do governo, mas a gente enfrentou. Já nos primeiros anos, tivemos soma de artistas como Susana Vieira e David Brazil! E tudo foi acontecendo. Hoje, é incrível como os moradores abraçam o evento, participam, curtem", diz com satisfação. 

Os quatro ativistas são exemplos de que tudo vale a pena quando o orgulho não tem tamanho de tão grande. 

Wilson dantas parada lgbt natal
A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), à esquerda, com Wilson Dantas, à direita

Wilson lembra do início e diz que valeu a caminhada (literalmente, enfim) de quase três décadas até aqui.

"Influenciados pela parada do Rio de Janeiro de 1995, a primeira do Brasil, eu, Jaqueline Brasil e Paulo Renan, já falecido, quisemos realizar uma marcha aqui em Natal, isso em 1999. Ela foi feita no centro de Natal, na praça Kennedy, com 300 pessoas. Um carro de som com alguns artistas locais que se apresentaram gratuitamente. Houve apoio da prefeitura e de sindicatos. Ainda me lembro do grande esforço que fizemos, mas tudo valeu a pena. Estamos aqui, em 2026, indo para a 28ª edição."

Bruno encontra forças, mesmo em um mundo tomado pelas redes sociais, nas pessoas que sentem a altivez, a felicidade e a reivindicação tomarem conta de praças e ruas, sim, feitas de cimento, bancos, asfalto e vontades. 

"Dificuldades sempre vão existir. Eu não me importo. O que é fundamental é colocar o movimento na rua de qualquer maneira. Porque vale demais a pena! O que dá força é ver a quantidade de gente que nos procura depois de cada evento, principalmente jovens, que dizem sofrer preconceito na família ou na escola ou em ambos lugares e que ficaram fortalecidos por ver tanta gente na rua, na parada igual a eles! Eles se sentem renergizados, acolhidos... Isso faz tudo ter significado e nos faz continuar a lutar para a parada continuar a existir."

O arco-íris une pontos longínquos e os colocam em vibração igual. Moradora da Rocinha há 18 anos, Priscila fala emocionada do quanto a possibilidade de quebrar preconceitos e construir compreensões a fortalece para levar as pessoas para a rua. 

"Minha recompensa, eu tenho ao ver a mãe que não aceitava esse universo e não sabia lidar com o filho. Eu passei por isso! Ver que posso contribuir, nem que seja com um pouco, para esclarecer as pessoas sobre respeito e amor... Eu sinto que posso ajudar a mudar minha comunidade, a cidade, o País, o mundo."

Enfim mais um verbo para conjugar ao ver quem constrói o orgulho: agradecer!

gay pride NYC
Paradas do Orgulho lembram o 28 de Junho - Dia Internacional do Orgulho LGBT. Elas nasceram em 1970 (foto) como forma de lembrar o primeiro aniversário da Revolta de Stonewall, levante LGBT ocorrido em Nova York contra a repressão policial, leis opressoras e preconceito que dominava a sociedade.

 

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